Quando o Exótico Vira Espelho


No começo, não era sobre ele ser marroquino. Mas também era.

Era sobre o jeito diferente de falar meu nome, sobre palavras que eu não entendia mas sentia. Sobre a curiosidade que vinha antes do afeto, e o afeto que vinha antes do cuidado. Eu dizia pra mim mesmo que era só encanto cultural, uma troca bonita entre dois mundos. Hoje sei: era carência se vestindo de novidade.

Ele chegou como quem não promete nada e, mesmo assim, entrega tudo em doses pequenas. Presença sem permanência. Atenção sem compromisso. Eu aceitei. Aceitei porque parecia leve, porque parecia adulto, porque parecia moderno amar assim, sem cobranças. Mas amar sem cobrança não é o mesmo que amar sem dor.

Com o tempo, fui percebendo que eu estava sempre traduzindo. Traduzindo o silêncio, o atraso, a ausência, a frieza que vinha depois de um dia bom. Traduzindo até o que doía, só pra continuar cabendo naquela história que nunca teve nome.

Talvez o mais difícil tenha sido entender que o exótico não era ele, era eu fora do meu eixo. Tentando ser compreensivo demais, disponível demais, paciente demais. Como se amar alguém de outro país exigisse que eu anulasse meu próprio território emocional.

Não exigia. Mas eu fiz.



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