O nome disso é amor



Passeando pela pracinha perto de casa sentei-me no balanço verde descascado de dois lugares preso por correntes enferrujada que fico toda quarta-feira após o jazz. Diria que ele é o meu preferido do lugar, a vista para o jardim pouco cuidado e o resto do parquinho velho é de longe encantadora. Meu passeio não seria diferente dos outros, ficaria ali por pouco tempo pensando nos últimos dias e tentando achar respostas para alguns perguntas que nunca me atrevi fazer, mas algo mudou os meus planos, ou melhor, um senhor quase careca que resolveu sentar ao meu lado. Inicialmente ele me olhou bem, depois de ter visto o que queria sentou-se. Sorriu e me deu boa tarde, respondi sem me importar tanto e continue pensando nas mesmas coisas. Ele então não aguentou o silêncio por muito tempo e por algum engano achou que eu seria a pessoa ideal para ouvi-lo.

Menina, como as pessoas podem achar que a vida é ruim?  - começou questionando-me. - Sei que às vezes você acha, mas não entendo como pode achar. - continuou sem dar importância se eu iria ou não responder. - Veja só, minha mulher não adoeceu nem tampouco brigou comigo, não perdeu a casa, o carro nem seu dinheiro e ainda sim reclama. Mas aí você me diz, reclama de quê meu senhor? Não sei minha jovem. - diz de cabeça baixa. - Quando ela acorda a mesa já está posta com frutas e as torradas que ela adora. A pia está limpa, o chão está mais limpo que a gente que toma três, quatro banhos e a música clássica que ela adora está tocando. Ajudo-a com o almoço enquanto ouvimos aqueles programas chatos que passam na tv pela manhã, arrumo novamente a mesa e coloco flores frescas do nosso jardim no vaso. Rimos das mesmas piadas e até me arrisco em umas novas e ela até gosta. Pela tarde a observo tocar piano e quando erra ela solta um palavrão. Eu poderia achar aquilo terrível, mas ela é a coisa mais linda, até mesmo aborrecida. O jantar ela faz questão de fazer sozinha, todo dia tenta inovar na receita que viu nas revistas de cozinha que comprou. Passeamos por essa praça todas as noites, vemos filmes e desenhos animados e nem ligo de pagar a conta telefônica por ela ficar pendurada conversando com as amigas. Eu a amo e todo dia de uma forma diferente, todo dia a amo mais. E ainda sim não entendo o que há de errado para ela reclamar. Demos muita sorte na vida. Nos conhecemos jovens, apesar de termos passado por outras pessoas até ficarmos juntos. Concluímos nossos estudos, trabalhamos nos nossos empregos dos sonhos, fizemos os cursos e viagens que achamos importante, meu pai faleceu e como filho único herdei tudo o que me deixaria livre de trabalho e do que eu quiser. Então casei, pensamos em ter filhos, mas a Maria... - ele sorriu. - Estamos tentando adotar uma criança. Tudo bem que já estamos um pouco velhos, mas acho que nunca é tarde para realizar um sonho. - olhou para mim e algumas lágrimas escorram dos meus olhos. - Qual seu sonho minha filha?

Bom, fiquei calada sem saber o que lhe responder. Eu tinha sonhos sim, os loucos, bonitos e verdadeiros, mas o que eu mais queria era um amor. Um amor tão bonito e sincero quanto o que ele me descreveu agora. Queria lhe dizer o quanto dona Maria é sortuda e o quanto quero ter essa sorte um dia, mas não poderia, estaria reclamando e ele não entenderia. Pensei mais um pouco e lhe disse que sonhava viajar o mundo, conhecer lugares e pessoas e escrever histórias como a dele. Ele sorriu e me disse que era um bom sonho, mas não parou por aí.

 - O que faria minha filha se encontrasse o amor da sua vida em uma dessas viagens? Continuaria com o seu sonho ou teria novos, agora com alguém ao seu lado para compartilhar

Ele era o senhor mais inteligente que já conheci. Poderia ter sido meu avô, não reclamaria. Ele entendia do amor como ninguém. Veja só, que pergunta mais óbvia. Claro que continuaria meus sonhos e ele, como meu amor, me incentivaria a eles. Mas o seu Augusto, ele me disse seu nome a dois minutos atrás, riu de mim. Não entendi no começo, mas logo me explicava que o amor não é egoísta, claro, eu sabia disso, mas que uma menina muito esperta escolheria a segunda opção. Quando encontramos alguém não podemos deixar escapar. Uma vez ele quase deixou dona Maria partir, mas foi atrás e todos os dias lhe dar motivos para se alegrar das escolhas que juntos fizeram, e o nome disso é amor. 

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